segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O casulo Nikos Kazantizaks

Lembro-me de uma manhã em que eu havia descoberto um casulo na casca de uma árvore, no momento em que uma borboleta rompia o invólucro e se preparava para sair.
Esperei bastante tempo, mas estava demorando muito e eu estava com pressa.
Irritado, curvei-me e comecei a esquentá-lo com meu hálito. Eu esquentava impaciente e o milagre começou a acontecer diante de mim, em um ritmo mais rápido que o natural. O invólucro se abriu e a borboleta saiu se arrastando.
Nunca hei de esquecer o horror que senti então: suas asas ainda não estavam abertas, com todo o seu corpinho que tremia, ela se esforçava para desdobrá-las.
Curvado por cima dela, eu ajudava com meu hálito. Em vão.
Era necessário uma paciente maturação, e o desenrolar das asas devia ser feito lentamente, ao sol. Agora era tarde demais. Meu sopro obrigara a borboleta a se mostrar toda amarrotada antes do tempo.
Ela se agitou desesperada e, alguns segundos depois, morreu na palma de minha mão.
Aquele pequeno cadáver é, eu acho, o peso maior que tenho na consciência. Hoje entendo bem isso, é um pecado mortal forçar as grandes leis.
Temos que não nos apressar, não ficar impacientes, seguir com confiança e ritmo eterno.

2 comentários:

  1. Li isso quando eu tinha uns 10 anos, e nunca mais esqueci, é mais que uma lição de vida...

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  2. Cara muito bom esse texto!Tu guardou na memória até hoje?O tempo,como não querer apressá-lo?
    Nós temos sede de viver,e acho que as vezes se for preciso,atropelamos os outros pra conseguir o que queremos.Depois vem o arrependimento,como um fardo,fazendo nos lembrar,que da mesma forma,podemos ser atropelados,e o fim,o fim será o início - da conversa com os restos - Que plantamos em nossos dias.

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